Eletricidade
Instalações elétricas. O mercado, a recorrência, a barreira regulatória, para onde vai.
O que é o trabalho
Eletricidade, num edifício, é tudo o que está atrás da parede e depende do quadro: a alimentação, a iluminação, as tomadas, as redes de dados, os sistemas de deteção e de emergência, e cada vez mais o carregamento de veículos e o autoconsumo. É um trabalho de instalar, ampliar e manter, feito por eletricistas com habilitação própria, e é o único ofício do edifício em que um erro se paga em incêndio ou em choque.
O mercado em Portugal
A instalação elétrica é o maior dos ofícios técnicos do edifício em Portugal: 10 960 empresas e 43 019 pessoas ao serviço, com uma faturação de €3 279 milhões em 2024 (INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas). E é também o mais desigual. Quase 94% das empresas têm menos de dez pessoas, e todas elas juntas fazem pouco mais de um quarto da faturação do setor. Do outro lado, dez empresas em todo o país têm duzentas e cinquenta ou mais pessoas e fazem quase um quarto da faturação sozinhas. O meio, entre a empresa de três pessoas e o grande grupo, é fino. É exatamente aí que estão as empresas locais sólidas, com nome feito e carteira de clientes própria.
10 960 empresas na instalação elétrica, CAE Rev.3 43210. Fonte: INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.
43 019 pessoas ao serviço na instalação elétrica. Fonte: INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.
93,7% das empresas têm menos de dez pessoas ao serviço e fazem 28,0% do volume de negócios do setor; as 67 empresas com cinquenta ou mais pessoas fazem 41,9%. Cálculo sobre INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.
Estatística pública. Fonte e ano acompanham cada número.
Porque é recorrente
A receita da eletricidade repete-se por três vias. A primeira é o contrato: clientes comerciais e industriais mantêm avenças com o seu eletricista, porque uma paragem custa mais do que a avença. A segunda é a lei: as instalações elétricas em serviço estão sujeitas a inspeção periódica sob o regime da Direção-Geral de Energia e Geologia, e onde a instalação inclui deteção de incêndio, alarme ou iluminação de emergência acrescenta-se a verificação exigida pelo regime de segurança contra incêndio em edifícios, que nos edifícios de maior risco é anual. A terceira é a avaria, que não escolhe altura nem se adia. Nenhuma das três depende de haver obra nova.
O que a lei exige
As instalações elétricas particulares têm em Portugal um regime próprio, supervisionado pela Direção-Geral de Energia e Geologia, e esse regime está construído em camadas. A empresa tem de estar habilitada para executar instalações e tem de ter, ao seu serviço, um técnico responsável pela execução, inscrito na DGEG, que assina o trabalho feito. Para as instalações que ficam em exploração continuada existe uma segunda figura, o técnico responsável pela exploração, com credencial distinta. E a verificação das instalações em serviço cabe a entidades inspetoras acreditadas, que são outras empresas, com inspetores próprios. Quem executa, quem assina e quem inspeciona são figuras separadas, e é isso que dá ao regime a sua espinha.
A isso junta-se o alvará de empreiteiro emitido pelo IMPIC, na 4.ª categoria, cuja classe limita o valor de obra que a empresa pode orçamentar, e junta-se o regime de segurança contra incêndio em edifícios sempre que o trabalho inclui deteção, alarme ou iluminação de emergência, com registo da entidade junto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e técnico responsável nomeado por categoria de equipamento. Cada nova tecnologia traz a sua camada: o carregamento de veículos elétricos passou a ter procedimentos de certificação próprios. Nada disto se resolve com uma carrinha e boa vontade. É aqui que se vê a barreira à entrada, e é também aqui que se percebe porque é que muitas empresas boas, com um dono só, chegam a um ponto em que a papelada custa mais do que o trabalho.
Para onde vai
Metade dos edifícios de habitação em Portugal foi construída antes de 1981 (INE, Censos 2021). As instalações elétricas desses edifícios foram dimensionadas para uma casa com muito menos aparelhos ligados do que a de hoje, e é isso que se vê no terreno: quadros no limite, secções de cabo que já não chegam, ausência de proteções que entretanto se tornaram norma. Reabilitar um edifício antigo é quase sempre refazer a instalação elétrica, e é esse o trabalho que está a crescer.
50,2% dos edifícios de habitação em Portugal foram construídos antes de 1981, 1 794 306 de um total de 3 573 416. Fonte: INE, Censos 2021.
A carga elétrica dos edifícios está a subir e a rede está a ser preparada para isso. A ERSE aprovou em 2026 um plano de investimento da E-REDES na rede de distribuição de €1,6 mil milhões entre 2026 e 2030, mais 89% do que a média anual da década anterior. Portugal fechou 2025 com cerca de 15 600 pontos públicos de carregamento de veículos e 6,8 GW de solar instalado, contra uma meta nacional de 20,4 GW em 2030. As bombas de calor, que substituem caldeiras a gás, são carga nova dentro do edifício: instalaram-se 105 mil em 2024. Tudo isto é trabalho de eletricista, e tudo isto exige quadros novos, proteções novas e gente formada para os montar. A formação de um técnico de campo demora entre um e três anos, e não há forma de a acelerar.
Porque nos interessa
Interessa-nos porque é o maior dos ofícios técnicos do edifício e o mais fragmentado: quase 94% das empresas do setor têm menos de dez pessoas (INE, 2024), e entre elas há empresas muito boas, com nome feito na sua zona. Interessa-nos porque a receita não depende de haver obra nova: há avenças, há inspeções obrigatórias e há avarias que não esperam. Interessa-nos porque a barreira é de credencial e de gente formada, e essas coisas demoram anos a construir. E interessa-nos porque a procura cresce por razões que não são de conjuntura: mais equipamento ligado, mais carregamento de veículos, mais autoconsumo, mais automação. São empresas para comprar e manter.
O que procuramos numa empresa, em números: o que procuramos.