Atividade

Canalização

Redes de água, gás e saneamento nos edifícios. O que é o trabalho e porque nos interessa.

O que é o trabalho

Canalização é a rede de água, de gás e de esgotos dentro do edifício: a tubagem que traz a água potável a cada torneira, a que leva o gás ao esquentador e à cozinha, e a que retira as águas residuais e pluviais. É instalá-la de raiz, repará-la quando falha e mantê-la ao longo de uma vida útil que se conta em décadas, num trabalho que quase sempre passa por dentro de paredes e tetos que outra pessoa fechou.

O mercado em Portugal

Em Portugal há 4 576 empresas de instalação de canalizações e 12 694 pessoas a trabalhar nelas, com uma faturação de €804 milhões em 2024 (INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas). É a mais fragmentada das atividades técnicas do edifício: 95% das empresas têm menos de dez pessoas ao serviço e essas empresas, somadas, fazem quase metade da faturação de todo o setor. E há um número que resume o resto: não existe em Portugal uma única empresa de canalização com duzentas e cinquenta ou mais pessoas. As quinze maiores, com cinquenta ou mais pessoas cada, não chegam a um quinto do mercado. Este é um ofício de empresas locais, e continua a sê-lo.

4 576 empresas na instalação de canalizações, CAE Rev.3 43221, subclasse que o INE publica separadamente da climatização. Fonte: INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.

12 694 pessoas ao serviço nessa mesma atividade. Fonte: INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.

95,3% das empresas têm menos de dez pessoas ao serviço e fazem 46,6% do volume de negócios do setor; nenhuma empresa da atividade tem duzentas e cinquenta ou mais pessoas. Cálculo sobre INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.

Estatística pública. Fonte e ano acompanham cada número.

Porque é recorrente

A canalização repete-se por razões diferentes das dos outros ofícios. No gás, a obrigação é legal: as instalações de gás são inspecionadas antes de entrarem em serviço e voltam a ser inspecionadas ao longo da vida, sob o regime da Direção-Geral de Energia e Geologia, e o trabalho só pode ser feito por entidade instaladora registada. Nas redes de água, há edifícios sujeitos ao regime de prevenção da legionela, que impõe colheitas periódicas e auditoria. E fora disso o trabalho repete-se por razões físicas, não legais: condomínios e clientes comerciais mantêm avenças porque uma rotura de água num teto custa muito mais do que a avença, e porque uma rede de canalização instalada há trinta anos não chega ao fim da vida de uma só vez, chega aos bocados. É o ofício em que o cliente liga primeiro para quem já lá esteve.

O que a lei exige

No gás, a lei é explícita e é a mais dura das três atividades. Nenhuma empresa pode executar, alterar ou manter uma instalação de gás sem estar inscrita na Direção-Geral de Energia e Geologia como entidade instaladora, e a inscrição distingue quem trabalha nas redes e ramais de quem intervém nos aparelhos, havendo empresas habilitadas para as duas coisas. O trabalho tem de ser assinado por técnico de gás qualificado, e a instalação é inspecionada antes de entrar em serviço e volta a sê-lo durante a exploração. A DGEG publica a lista nacional: na última edição publicada, com dados de julho de 2024, estavam registadas 1 102 entidades instaladoras de gás em todo o país, das quais 351 habilitadas apenas para redes, 193 apenas para aparelhos e 558 para ambos. Convém não confundir esta inscrição com o alvará de obras: o alvará permite executar a obra, a inscrição na DGEG é que autoriza mexer no gás.

Do lado da água e do saneamento, o enquadramento é outro. A execução de obra continua a exigir alvará de empreiteiro do IMPIC, na subcategoria de canalizações e condutas em edifícios, e a ligação às redes públicas obedece às regras da entidade gestora de cada concelho, que não são iguais em todo o país. A qualidade da água para consumo humano tem regime próprio, fiscalizado pela ERSAR, e os edifícios abrangidos pelo regime de prevenção da legionela têm obrigações periódicas de colheita e de auditoria. E se a rede é de combate a incêndio, com bocas de incêndio armadas ou sprinklers, entra o regime de segurança contra incêndio em edifícios, com registo da entidade junto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e técnico responsável nomeado. É um ofício com menos legislação de manutenção do que o AVAC ou a eletricidade, mas com uma zona, a do gás, em que a exigência é total.

Para onde vai

Metade dos edifícios de habitação em Portugal foi construída antes de 1981 (INE, Censos 2021). As redes de água e de esgoto desses edifícios estão a chegar ao fim da vida útil ao mesmo tempo, tubagem a tubagem: fugas que aparecem em tetos de vizinhos, colunas que já não dão pressão, materiais que hoje não se usariam. É trabalho que não se adia e que não se faz de fora, porque passa por dentro do edifício. Toda a reabilitação séria de um prédio antigo em Portugal passa, mais cedo ou mais tarde, pelo canalizador.

50,2% dos edifícios de habitação em Portugal foram construídos antes de 1981, 1 794 306 de um total de 3 573 416. Fonte: INE, Censos 2021.

O que está a mudar é o lado do gás. As bombas de calor e o aquecimento elétrico de água estão a substituir esquentadores e caldeiras, e o Estado está a financiar essa troca de forma explícita: o programa E-Lar, criado para trocar equipamento a gás por equipamento elétrico, esgotou a primeira fase em seis dias, com cerca de quarenta mil candidaturas, e abriu uma segunda com sessenta milhões de euros. Em 2024 instalaram-se 105 mil bombas de calor em Portugal (EHPA, Market Report 2025). Para uma empresa de canalização isto não é o fim de nada: é a substituição de um tipo de trabalho por outro, com a instalação de água quente a continuar a ser dela e a rede de gás a passar a ser trabalho de manutenção e de desativação. Ao lado disto, os programas de reabilitação financiam obra em edifícios antigos que é, em boa parte, obra de canalização. O que falta em todo o lado é gente: o percurso formativo de um canalizador tem oitocentas e cinquenta horas de formação técnica de base, e não há atalho.

Porque nos interessa

Interessa-nos porque todos os edifícios têm canalização e todos a vão ter sempre. Interessa-nos porque é o mais fragmentado dos ofícios do edifício em Portugal: 95% das empresas têm menos de dez pessoas e não existe uma única com duzentas e cinquenta ou mais pessoas (INE, 2024). Não há aqui um grande grupo a comprar tudo, há centenas de empresas locais com clientes que lhes ligam há vinte anos. Interessa-nos porque no gás há uma barreira regulatória a sério, que separa quem está inscrito de quem não está. E interessa-nos porque a receita vem de contratos com condomínios e clientes comerciais e de trabalho que reaparece sozinho num parque de edifícios com quarenta e cinquenta anos. São empresas para comprar e manter, não para arrumar.

O que procuramos numa empresa, em números: o que procuramos.

Uma casa permanente para a empresa que construiu.

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