AVAC
Climatização e ventilação. O mercado em Portugal, porque é recorrente, o que a lei exige.
O que é o trabalho
AVAC é o aquecimento, a ventilação e o ar condicionado de um edifício: as máquinas que aquecem, arrefecem e renovam o ar, as condutas e tubagens que as ligam, e o trabalho de as instalar, afinar e manter a funcionar. É um trabalho de campo, feito no edifício do cliente por técnicos que voltam lá ano após ano, desde o split de uma loja até aos chillers e unidades de tratamento de ar de um hospital ou de um centro comercial.
O mercado em Portugal
Em Portugal há 2 346 empresas registadas na instalação de climatização e 12 991 pessoas a trabalhar nelas (INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024). O setor faturou €1 181 milhões nesse ano. É um mercado feito de empresas pequenas: 88% delas têm menos de dez pessoas ao serviço, e essas empresas, somadas, valem um terço da faturação do setor. No outro extremo, apenas 25 empresas em todo o país têm cinquenta ou mais pessoas, e só três chegam às duzentas e cinquenta. Nenhuma empresa domina o mercado. Há centenas de empresas locais, cada uma com o seu nome, a sua zona e os seus clientes de sempre.
2 346 empresas na instalação de climatização, CAE Rev.3 43222, subclasse que o INE publica separadamente da canalização. Fonte: INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.
12 991 pessoas ao serviço nessa mesma atividade. Fonte: INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.
88,3% das empresas têm menos de dez pessoas ao serviço e fazem 33,2% do volume de negócios do setor; as 25 empresas com cinquenta ou mais pessoas fazem 29,5%. Cálculo sobre INE, Sistema de Contas Integradas das Empresas, 2024.
Estatística pública. Fonte e ano acompanham cada número.
Porque é recorrente
A climatização não se instala e esquece. Um sistema instalado tem de ser mantido, e uma parte significativa dessa manutenção não é opcional: o regime de certificação energética dos edifícios (Decreto-Lei 101-D/2020) obriga os grandes edifícios de comércio e serviços a ter um plano de manutenção e sujeita os sistemas de climatização e ventilação acima de 70 kW a inspeções periódicas. Sobre isso assenta o regime europeu dos gases fluorados, que impõe verificações regulares de fuga aos equipamentos que os contêm e que só pode ser cumprido por empresas e técnicos certificados. O resultado prático é que uma boa empresa de AVAC vive de avenças anuais sobre um parque instalado que ela própria conhece, com o trabalho pontual a ser faturado por cima. A instalação sobe e desce com a construção. A manutenção fica.
O que a lei exige
Quem mexe em gases fluorados em Portugal precisa de duas certificações, não de uma. O Decreto-Lei 145/2017 transpôs o regulamento europeu dos gases fluorados e exige que a empresa tenha o seu certificado e que cada técnico tenha o seu, ambos com validade de sete anos. A autoridade competente é a Agência Portuguesa do Ambiente e os certificados são emitidos por organismos acreditados pelo IPAC, entre os quais a CERTIF e o EIC. O regulamento europeu foi reformulado em 2024 e passou a apertar as quotas de gases com maior efeito de estufa e a proibir alguns fluidos na assistência a equipamento já instalado. A regra que mais conta na prática é simples: a certificação é exigida quando o serviço é prestado a terceiros. Uma equipa interna que trata do seu próprio equipamento está fora; qualquer empresa que faça manutenção para clientes está dentro. À data da última edição publicada do registo do EIC, de 16 de janeiro de 2026, estavam listadas 430 entidades certificadas em todo o país. Não é um mercado onde se entre num mês.
Por cima disso há o resto da licença. Para executar obra de instalação é preciso alvará de empreiteiro emitido pelo IMPIC, na 4.ª categoria, e a classe do alvará limita o valor de obra que a empresa pode orçamentar. Do lado dos técnicos, o regime de certificação energética dos edifícios criou títulos próprios, hoje regulados pelo Decreto-Lei 102/2021, e todo o ato de instalar, substituir ou beneficiar um sistema técnico num edifício abrangido tem de ser feito por quem os tem. Se o aquecimento é a gás, entra a Direção-Geral de Energia e Geologia, que mantém o registo nacional das entidades instaladoras de gás. E se o trabalho toca a segurança contra incêndio, como acontece no controlo de fumo e na ventilação das vias de evacuação, entra o regime de segurança contra incêndio em edifícios e o registo da entidade junto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, com técnico responsável nomeado por categoria de equipamento. É aqui que se vê a barreira à entrada: não é o capital, nem o equipamento. São os anos de papéis, de exames e de gente formada que ninguém compra de véspera.
Para onde vai
Metade dos edifícios de habitação em Portugal foi construída antes de 1981 (INE, Censos 2021). Foram levantados num país sem regras de desempenho energético, muitos sem qualquer sistema de aquecimento ou arrefecimento previsto de origem, e com envolventes que hoje não passariam. Isso significa duas coisas ao mesmo tempo para quem trabalha em climatização. Significa substituição, de equipamento que chegou ao fim da vida útil e de soluções que já não cumprem. E significa instalação nova, em edifícios que nunca tiveram nada. O trabalho não está na construção nova. Está no que já lá está.
50,2% dos edifícios de habitação em Portugal foram construídos antes de 1981, 1 794 306 de um total de 3 573 416. Fonte: INE, Censos 2021.
O setor está a mudar por três lados ao mesmo tempo. Pelo equipamento: instalaram-se 105 mil bombas de calor em Portugal em 2024, mais 8% do que no ano anterior, e Portugal foi um de apenas três mercados europeus a crescer nesse ano (EHPA, Market Report 2025). Pelo fluido: a redução das quotas europeias de gases fluorados e a proibição, a partir de 2026, de usar os gases de maior efeito de estufa na assistência a ar condicionado e bombas de calor obrigam a decidir, equipamento a equipamento, entre adaptar e substituir. E pela mão de obra: a APIRAC estima o setor em cerca de 25 mil postos de trabalho com uma falta de cerca de 5 mil técnicos, e diz que há empresas a recusar trabalho por não terem quem o faça (Human Resources Portugal, março de 2025). Quem tem técnicos formados e certificados tem o ativo mais escasso deste negócio.
Porque nos interessa
Interessa-nos porque é um trabalho que não acaba. A parte da receita que vem de avenças de manutenção repete-se todos os anos, em parte porque a lei a impõe, e sobrevive a anos maus melhor do que a obra nova. Interessa-nos porque a barreira é real e é de competência, não de capital: as certificações, os alvarás e os técnicos formados levam anos a construir e não se compram de um dia para o outro. Interessa-nos porque é um setor feito de empresas pequenas e boas, cada uma com o seu nome e a sua zona, sem nenhuma empresa a dominar o mercado. E interessa-nos porque a procura vem do parque edificado que já existe, não de uma aposta na construção nova. São empresas para comprar e manter, não para arrumar.
O que procuramos numa empresa, em números: o que procuramos.